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O Enigma em Duas Vias

​O relógio de pêndulo da sala marcava 1824, enquanto o despertador digital do criado-mudo insistia em piscar 2148. A personagem suspirou, esticou o braço e deu um beliscão doloroso no próprio antebraço direito.

​— Ai! — resmungou.

​Nada mudou. O roxo que começava a se formar na pele parecia bastante real, mas a grande questão continuava no ar: qual das duas realidades era a pele verdadeira e qual era apenas o lençol? E, acima de tudo, quem era a pessoa sob aquela pele?

​Para a nossa personagem, dormir era um esporte de alto risco existencial. Quando encostava a cabeça no travesseiro vestindo sua túnica de linho cru no século XIX como Helena, acordava assustada com o alarme estridente de um apartamento suspenso no 140º andar de uma metrópole reluzente do século XXII — só que agora como Hélio, um rapaz de ombros largos e voz grave.

​E quando Hélio finalmente desativava o painel holográfico, tomava seu café sintético e se deitava na cama de levitação, bastava fechar os olhos por cinco minutos para despertar com o cheiro de esterco de cavalo e o som de uma carruagem no paralelepípedo... dessa vez na pele de Heleno, um jovem estudante de trajes austeros no passado!

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​O maior problema nem era o choque cultural ou a mudança contínua de corpo, mas a logística diária. A identidade mudava de gênero sem aviso em ambos os séculos, como se a própria realidade não conseguisse decidir as configurações do personagem.

​No passado — ou seria no presente? —, quando acordava como moça, tentava inutilmente aprender a tocar cravo. Quando acordava como rapaz, precisava fingir entusiasmo pelos negócios da família.

​— Helena, minha filha, você está distante de novo — repreendia a mãe num dia, ajustando os apertados cordões do corselete da moça.

​— Heleno, meu filho, tome postura de homem e pare de sonhar acordado! — bradava o pai no dia seguinte, batendo com a bengala no chão.

​— Não é sonho... É só que estou tentando lembrar onde deixei minha senha de acesso do terminal urbano... — murmurava o/a personagem, levando imediatamente outro beliscão por “falar bobagens sem nexo”.

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​No futuro — que bem podia ser só um sonho muito bem renderizado —, a confusão não era menor. Ora atendia aos chamados da corporação como uma analista de dados rigorosa, ora como um engenheiro de sistemas cibernéticos. O trabalho exigia precisão milimétrica, mas a pessoa vivia bocejando nas reuniões virtuais porque tinha passado a “noite” inteira ou bordando um lenço à luz de velas ou limpando os cascos de um cavalo sob a supervisão severa da família imperial.

​— Seu bio-ritmo e seu padrão hormonal estão completamente descompensados — dizia o holograma do médico no futuro, flutuando ao lado da cápsula de sono. — Seus índices indicam estresse severo e flutuações celulares inexplicáveis. O que você esteve fazendo?

​— Tentando convencer um visconde de que lavar as mãos evita a cólera... e tentando lembrar se hoje eu devia usar saia ou cartola — respondera com cansaço. O médico apenas ajustou a dosagem do calmante sintético, convencido de que o paciente lia ficção arcaica demais antes de deitar.

​Sentou-se na beira da cama — que a essa altura parecia simultaneamente feita de penas de ganso e de polímero inteligente — e encarou as próprias mãos.

​Procurou o reflexo no espelho do toucador. Um dia encarava traços delicados de uma dama oitocentista; no outro, a barba rala de um rapaz do século XXII. Às vezes, as combinações se cruzavam de forma ainda mais bizarra.

​No dedo anelar, havia uma mancha de tinta de pena do século XIX. No pulso, a marca luminosa do microchip de identificação do século XXIII. Mais um beliscão. Ai.

​Se o passado era o sonho, de onde vinha o cheiro tão nítido de lavanda e o desconforto ora de usar anquinhas, ora de usar um colarinho engomado de linho? Se o futuro era o sonho, como podia saber exatamente o gosto de uma pílula de nutrientes ou a sensação da barba crescendo na mandíbula ao acordar como homem?

​— Talvez — pensou, ajeitando a gola do terno futurista (ou seria o véu de renda?) enquanto, sem querer, tentava deslizar o dedo na parede de pedra esperando que um menu digital se abrisse —, eu não pertença a tempo, corpo ou gênero nenhum. Ou pertença a todos. O que significa que tenho o triplo de roupas no armário e o dobro de contas para pagar.

​A dúvida cruel sobre qual vida — e qual corpo — era o “real” chegou ao auge em uma terça-feira.

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​No futuro, sob a forma de uma jovem analista, recebeu o convite de um colega simpático para um passeio nos jardins flutuantes de Marte. Horas depois, ao fechar os olhos e acordar no passado como um apessoado cavaleiro, viu-se cortejado por uma jovem da nobreza para um passeio de barca ao pôr do sol.

​A personagem olhou para os dois lados da própria mente — o futuro reluzente e o passado romântico, a experiência masculina e a feminina, tudo entrelaçado num nó cego existencial.

​— Sabem de uma coisa? — disse para o vazio, beliscando a bochecha com força bastante para deixar uma marca rosa. — Se vou enlouquecer sem saber qual época ou qual corpo é o de verdade, ao menos vou escolher qual das duas realidades tem a melhor sobremesa.

​Daquele dia em diante, parou de tentar resolver o enigma. Se o passado era um sonho do futuro, aproveitava para dormir mais cedo e fugir do trânsito aéreo. Se o futuro era apenas um delírio do passado, saboreava a ideia de que a ciência um dia inventaria o ar-condicionado e a anestesia dentária.

​E assim seguiu: dividida entre dois séculos, múltiplos corpos e identidades fluídas, com a pele eternamente marcada de pequenos beliscões de dúvida, mas convicta de uma única e grande verdade universal — não importa a época, o gênero ou a dimensão, o café quente de manhã era a única coisa que comprovava a existência do mundo acordado.

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LYGIA VICTORIA
Enviado por LYGIA VICTORIA em 14/08/2026
Alterado em 14/08/2026


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