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O Banquete do Demiurgo

O inferno não é uma promessa post-mortem, uma geena de enxofre aguardando o veredito final nas profundezas. O inferno tem topografia imediata: é o chão que pisamos no agora. É aqui que a engrenagem mórbida se revela, onde “Deus” parece recrutar os bons cedo demais, confiscando-os do mundo e deixando o palco livre para os arquitetos da ruína.

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Dizem que a redenção resolve tudo, mas a conta do arrependimento é moeda perversa e insuficiente quando os estragos já são oceânicos. A prova viva está impressa na história: os ditos “poderosos”, intoxicados por uma sede de expansão que nunca se sacia, aniquilando inocentes como se fossem apenas poeira no tabuleiro do mundo.

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Se a divindade primordial fosse a soma total de uma bondade idílica, a própria noção de um predador carnívoro seria um erro crasso de design. Mas a natureza não é um templo de paz; é um banquete de dentes, garras e vísceras. E o ser humano não é uma exceção à regra; ele é o predador ápice, carnívoro por instinto, essência e natureza.

Minha conclusão, portanto, afasta-se dos panfletos sagrados para abraçar uma lógica crua: se o homem foi moldado à imagem e semelhança desse Criador, então esse Deus — moldado pela mente e pela história dos homens — também é carnívoro. A teologia do sangue confirma a tese. Para que serve o sacrifício do Filho? Ele foi enviado para sofrer cada flagelo, cada humilhação e o suplício da Cruz não como um símbolo místico, mas como um abatedouro teológico. Um banho de sangue purificador, necessário para salvar a humanidade... da própria humanidade. Sim, Deus é carnívoro.

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Recordo-me de um embate verbal com um pastor. Ele, blindado pela certeza dogmática, insistia que Deus criara o homem absolutamente perfeito; o homem é que, por livre-arbítrio e arrogância, escolhera desobedecer. Devolvi-lhe um dardo de raciocínio simples: ”Ora, pastor, se ele foi capaz de desobedecer, é justamente porque a perfeição nunca esteve lá”. O silêncio estupefato que se seguiu foi o som da teologia desmoronando diante da lógica óbvia.

Por isso, guardo um ceticismo incurável diante daqueles que vivem enclausurados em templos e igrejas. O que buscam os que se ajoelham diariamente nas fendas do altar? Expurgar os próprios pecados em uma rotina mecânica de culpa e alívio? Ou mendigar favores, transformando o Infinito em um balcão de negócios cósmico? Dizem que o fazem para adorar. Mas por que adorar? Se Deus exige adoração, ele herdou as piores vaidades humanas; se exige tributos de obrigado, opera sob a mesquinha lógica da dívida.

No entanto, há que se fazer justiça à beleza: a palavra ‘gratidão’ é magnífica. E o estado de gratidão — a capacidade de contemplar o milagre da existência apesar do horror — é o ponto mais alto da nossa dignidade.

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Para mim, Deus se despe de personificações litúrgicas. Ele é a força criadora primordial do universo, o motor cego do cosmos onde o bem e o mal não travam uma guerra maniqueísta, mas coabitam o mesmíssimo espaço energético. Não há necessidade de dividir o mundo em lados opostos quando ambas as vertentes são rigorosamente naturais. O bem floresce de forma natural, assim como o mal brota com a mesma legitimidade selvagem.

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Eu sinto gratidão por respirar, há lampejos de sublime que justificam a jornada. Mas a outra metade da moeda é pesada. A angústia crônica e a dor crua são arquiteturas sádicas. Que tipo de Pai assiste, em silêncio absoluto, suas criaturas serem dilaceradas por dores de dente que cegam, dores físicas que paralisam o corpo e mutilações na alma que gritam por um socorro que nunca vem? É o eterno retorno do primeiro crime: Caim golpeando Abel em um ciclo infinito de sangue.

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No fim das contas, a grande ilusão foi invertida. Não fomos nós os esculpidos pelo barro divino. Deus é que foi feito, linha por linha, medo por medo, à imagem e semelhança do próprio homem.

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LYGIA VICTORIA
Enviado por LYGIA VICTORIA em 03/06/2026


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