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No ano de 2126, a humanidade, cansada de perder seus entes queridos para a violência urbana e acidentes bobos, resolveu dar um basta. Cientistas, em um raro momento de colaboração com historiadores e (pasmem!) políticos, essa ironia em relação à classe, nos remete à ideia de que, em sua grande maioria, não se preocupam com partido, com direita, com esquerda, com ideologias. Utilizam-se da política para proveito próprio, ganância e ostentação. Voltando ao texto, os estudiosos desenvolveram o Ressuscitador. Uma máquina milagrosa, capaz de remendar corpos crivados de balas, retalhados por facas e uma série de outros acidentes ou simplesmente amassados por caminhão voador .

A ideia era linda: a ciência e a história marchando de mãos dadas, a política e a economia dando o suporte necessário, e a sociedade, bem, a sociedade estava ocupada demais tentando não ser atropelada por carros voadores para se preocupar com os detalhes. A essas alturas, empatia e outros sentimentos lindos habitavam um passado longínquo, porém posterior à pré-história.

As primeiras experiências com o Ressuscitador foram, digamos, pitorescas. A máquina, um amálgama de reatores nucleares, bobinas de Tesla e um toque de alta magia egípcia (porque, afinal, os faraós sabiam o que estavam fazendo com aquelas múmias, eles mesmos viraram múmias),

às vezes trazia as pessoas de volta com um sotaque estranho ou uma mania inexplicável de colecionar tampinhas de garrafa.

Aos poucos, a tecnologia foi se aprimorando. O Ressuscitador deixou de ser um trambolho barulhento e se tornou um aparelho elegante, quase um item de decoração. E com isso, a expectativa de vida disparou. Centenários ágeis e cheios de vida (e de peças de reposição) tornaram-se comuns. Atingir os 150 anos já não era motivo de espanto, apenas de mais algumas velinhas no bolo (e mais algumas parcelas do plano de ressurreição).

A sociedade, porém, não mudou muito. Enquanto uns buscavam a iluminação espiritual e a bondade universal,

outros continuavam a se comportar como se não houvesse amanhã (o que, com o Ressuscitador, era tecnicamente verdade).

As doenças e pandemias foram erradicadas, mas a estupidez humana, essa sim, parecia imune a qualquer avanço tecnológico.

A longevidade trouxe seus próprios dilemas. Se a família não fosse rica e não soubesse administrar suas finanças, estava em maus lençóis. Imagina ter que trabalhar por 100 anos para pagar o aluguel? A aposentadoria se tornou um conceito tão distante quanto a paz mundial. E se morresse e não tivesse dinheiro para a ressurreição? Bem, aí era fim de linha mesmo ou de deixar registrado que num futuro mais generoso pudesse voltar a viver.

O Ressuscitador, inicialmente um luxo para poucos, acabou se popularizando. Mas o custo continuava alto, afinal, radioatividade, energias e frequências de alta magia e rituais ancestrais não saem de graça. E com a popularização, vieram os problemas. Gente sendo ressuscitada sem permissão, ressurreições malfeitas (teve casos de pacientes que voltaram com a cabeça virada para trás!), e até mesmo mercados negros de peças de reposição humanas.

No ano de 2126, o mundo estava irreconhecível. O petróleo era coisa do passado, substituído por energia limpa e... bem, ressurreições. O clima havia mudado drasticamente, e a humanidade, fiel ao seu espírito aventureiro (e à sua incapacidade de resolver os problemas que criava), já começava a colonizar outros planetas.

Planetas que, curiosamente se pareciam muito com a Terra, porém sem os problemas de superpopulação e ressurreições malucas, como a de bandidos comprovadamente maus e nocivos à sociedade. E os casos dos que voltavam revoltados e querendo se vingar?!

A história do Ressuscitador é um lembrete de que a tecnologia, por mais avançada que seja, nunca vai conseguir consertar a falha mais fundamental do ser humano: a sua própria natureza. Talvez a palavra “nunca” seja muito forte, pois a ciência avança. Mas pelo menos, por ora, tem-se mais tempo hábil para se tentar.

Obrigada por sua leitura!📚 Caso haja curiosidade, escute meus áudios musicais. 🥰😘

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LYGIA VICTORIA
Enviado por LYGIA VICTORIA em 27/04/2026
Alterado em 29/04/2026


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