


Mistério da tela em branco no berço humano: por que, afinal, nascemos sob o signo do esquecimento, despidos de todo o saber acumulado, condenados à faina penosa do aprender?

Imaginamos um luxo divino: o conhecimento como um vasto acervo nas "nuvens" cósmicas, pronto para ser baixado por download em nossa consciência no momento exato da necessidade.

Não seria essa, aliás, a essência de nossa busca espiritual? O anseio por um contato imediato com o plano divino, um login rápido que nos oferecesse as coordenadas exatas da existência? No entanto, o cosmos nos exige a imersão constante. Não há atalhos. Temos de mergulhar no oceano da dúvida e da experiência a todo instante para fisgar o peixe — a porção fugaz de verdade. Ou então, mergulhar para o alto, nessa ascensão mística que chamamos elevação.

Por que não nos foi concedido esse legado de sabedoria desde o primeiro suspiro? Somos, na essência, como todo animal, forçados a levantar a cada aurora, a travar a batalha diária para levar o pão 🍞 de cada dia à toca existencial. O instinto, esse saber primordial e cego, é a única sabedoria que carregamos por default, atada à materialidade do corpo. É como se fôssemos o esboço rascunhado de uma ideia, tentando a duras penas — e por incontáveis séculos — nos tornar a obra-prima que vislumbramos.

Contudo, é na singeleza da oração, no "Pai Nosso", que o enigma se desfaz e a resposta se revela como um bálsamo. Ali, na cadência das palavras, encontramos o manual para a jornada.
O Céu, a meta, a representação da ansiada elevação espiritual.

O Nome, a própria força motriz do universo, o poder do bem que reside na criação.
Quando suplicamos: "Venha a nós o vosso Reino", ecoamos o desejo de sermos preenchidos — "Encha-me e preencha-me com sua sabedoria e benevolência para que eu possa seguir seus passos!" A sabedoria não é dada, é acolhida.
O Perdão, não um ato de esquecimento, mas de alteridade e ascensão.

E o "Pão nosso de cada dia"? É o alimento, sim, mas é também a metáfora da busca diária: a nutrição do corpo e, principalmente, a conquista constante e suada da alma.

Talvez não nasçamos sabendo para que o conhecimento seja, em si, o milagre e a recompensa de nossa jornada, e não apenas uma herança. A vida, afinal, exige o mergulho.

Obrigada por sua leitura!📚 📖 📗 📘 📙
As trilhas sonoras, também as crio.