SÓ HÁ VICTORIAH PARA O GUERREIRO, PARA O JUSTO, PARA O QUE ENFRENTA O MUNDO COM CORAGEM, OTIMISMO E ALEGRIA. DEUS É BOM! FORÇA! VICTORIAH SEMPRE!
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A festa em homenagem aos docentes na cidade vizinha fora, para o Professor Raí, o que se poderia chamar de um sucesso etílico-pedagógico tão bem-sucedido que ele, notório por sua pontualidade quase britânica em dias úteis, foi o último a abandonar o salão, já na primeira (e esperançosa) hora da madrugada.

 

Os 30 quilômetros de volta para casa pareciam insignificantes sob o efeito do entusiasmo e de uma porção generosa de canapés de festa junina fora de época.

 

Munido de seu “Possante Vovô”, um carro que já tinha mais histórias para contar do que ele próprio, Raí decidiu “cortar caminho” por uma vicinal estreita e de mão dupla – uma decisão que, ele logo descobriria, tinha tanto de atalho quanto de abismo.

Já no meio da escuridão densa, onde a única benção luminosa era uma Lua Cheia que parecia uma lâmpada gigante pendurada no céu, o Possante Vovô tossiu. Não aquele pigarro de quem vai acordar, mas uma tosse asmática e definitiva. Engasgou-se, tremeu e, com a dignidade de um moribundo, parou.

 

O desespero, que geralmente só o atingia ao corrigir provas de redação, subiu-lhe à garganta. Naquela estrada esguia, ser atropelado por um veículo grande seria o equivalente a ser esmagado por um dogma. Os faróis se apagaram, o celular agonizava com 1% de bateria. “Como vou sinalizar?”, pensou ele. “Vou ter que usar o que me resta de aura professoral!”

 

Foi quando ele viu.

Do nada, no horizonte negro, surgiram dois sóis em miniatura, crescendo em sua direção. Faróis gigantescos, altos, ofuscantes. O cérebro de Raí, já meio lento pelo cansaço e pela festa, deu pane. A luz. Seria a luz mística, celestial, o portal?

Em milissegundos, sua vida inteira desfilou: a primeira aula, a primeira prova corrigida,

o dia em que trocou o nome de um aluno por outro, errou sua nota e nunca mais se perdoou. Ele pensou em Dogmas e Crenças, se a vida após a morte era plural ou singular, se haveria Wi-Fi no paraíso. Não havia mais tempo para correr. Era entregar a alma aos céus – ou, possivelmente, ao para-choque.

“Que seja leve”, suspirou, enquanto a luz o engolia.

Raí despertou com um toc-toc na janela. Estava quase dia, e o cenário de terror noturno parecia agora apenas um enguiço embaraçoso. Baixou o vidro, atordoado, esperando o inquérito policial ou um anjo.

 

Era um jovem de mochila, visivelmente a caminho da escola, que o olhava com a curiosidade típica de quem encontra uma criatura marinha fora d’água.

“Professor? Precisa de ajuda aí?”

Raí, o homem que acabara de ter uma epifania cósmica e um quase-acidente, simplesmente virou a chave. O Possante Vovô, para sua surpresa (e leve irritação), ligou na primeira.


“Não, obrigado, meu jovem,” respondeu, ajeitando-se no banco como se nada tivesse acontecido. “Só faça-me um favor: avise na escola que o Professor Raí vai se atrasar um pouco. É que tive um... um impasse filosófico noturno, elucubrações de professor..."

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Muito obrigada por sua leitura! As trilhas sonoras,  também as crio.

LYGIA VICTORIA
Enviado por LYGIA VICTORIA em 15/10/2025
Alterado em 15/10/2025


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