


Isadora tinha uma relação de amor e ódio com sua mente. E, por tabela, com a meditação. Aos 48 anos, ostentava uma beleza que o tempo parecia ter esquecido, com cabelos castanhos impecavelmente arrumados e um brilho nos olhos que desmentia o turbilhão de pensamentos em sua cabeça. Vaidosa, mas com moderação, ela era a imagem da serenidade exterior, um disfarce perfeito para a montanha-russa de ansiedade que a consumia por dentro.

Essa ansiedade era uma antiga conhecida, um fantasma que ela tentou exorcizar pela primeira vez aos 20 anos, quando conheceu o Guru Arjuna. Ele era um homem sereno, com uma barba longa e um olhar que parecia enxergar a alma. Sob sua tutela, Isadora aprendeu os segredos milenares dos yogues indianos. Ele a ensinou a visualizar anjos, mestres ascensionados, seres elementais, santos, orixás e a nadar em rios de luz colorida. Isadora, com sua sensibilidade aflorada, era a aluna perfeita. Ela via luzes, sentia presenças, e até flutuava fora do corpo durante as projeções astrais, deixando o Guru boquiaberto.

Foi numa dessas sessões que a coisa desandou. Para um mergulho profundo, a preparação era rigorosa: três dias sem carne, sem cigarro 🚬, sem álcool e, mais importante, sem a companhia do namorado, que para ela era a parte mais difícil da dieta. Após o jejum, Isadora deitou-se na esteira e, como uma sacerdotisa, entoou o mantra sagrado: “Oooohuuuuummm”. A melodia vibrou no ar, e logo sua alma deslizou para fora do corpo, como se estivesse escorregando numa casca de banana.

Ela se viu em uma caverna escura, úmida e fria. Lá dentro, milhares de seres indistintos murmuravam um “Oooohuuuuummm” que ecoava pelas paredes. O som era tão denso, tão profundo, que parecia a respiração do próprio planeta. Um pavor primitivo tomou conta de Isadora. O medo de nunca mais voltar para a sua vida, para o seu corpo, para o seu amado, foi maior do que qualquer desejo de iluminação. Em um piscar de olhos, ela se agarrou à sua casca humana, retornando com um baque que a fez acordar suada e ofegante, mas ainda ouvindo as vozes, até o volume ir diminuindo gradualmente e cessar.

Traumatizada, Isadora jogou todos os livros que o Guru Arjuna lhe emprestara na gaveta e prometeu nunca mais meditar. A promessa durou mais de 20 anos, até que a ansiedade, que era antes uma mera coadjuvante em sua vida, se tornou a protagonista, trazendo consigo uma claustrofobia tão violenta que ela precisava deixar a porta do armário aberta para pegar uma simples blusa.

Foi então que ela decidiu voltar à meditação. Agora, sua meta era modesta: apenas 20 minutos de paz. 20 minutos sem pânico, sem um coração que batia como um beija-flor enlouquecido. 20 minutos que, na prática, pareciam 20 anos.

A cena era cômica. Isadora sentava-se no chão da sala, com a luz baixa e uma música relaxante tocando em seus fones de ouvido. "Ooooohuuuuummm", ela tentava, conquanto sua mente era um labirinto de afazeres urgentes. Em cinco minutos, o corpo começava a reclamar. “Preciso ir ao banheiro”, ela pensava, enquanto a bexiga se manifestava com uma urgência dramática. “E os bichos? Eles já comeram hoje?”. Seu cérebro pulava de um pensamento para o outro, como um macaco em uma árvore.

“As plantas! Elas estão murchando!”, um pensamento a fez abrir os olhos. “Devo ir ao mercado? Preciso fazer uma lista de compras. Quais as promoções da semana?”. Em seguida, lembrava-se dos trabalhos dos alunos a serem corrigidos, dos boletos a serem pagos, das faturas a baixar. E os cachorros, coitados, precisavam de um passeio. E os parentes, com quem não falava há dias. O tempo passava e a meditação se transformava numa lista de tarefas.

O auge do humor vinha quando tentava perdoar. “Perdoar a quem vos tenha ofendido”, ela repetia, e o rosto de todos que a tinham chateado na vida piscava em sua mente, como um carrossel de ódio. O mecânico, que ainda não ligara para falar do carro, o colega de trabalho sempre falando mal dela, o primo que não devolveu o dinheiro do empréstimo. Ela precisava perdoá-los. Mas, para isso, precisava se levantar e ir varrer a casa, acender um incenso para purificar o ambiente e checar as últimas notícias. O caos era total.

Certa noite, ao se sentar para meditar, finalmente se deu conta da ironia: aqueles 20 minutos de meditação, deveriam ser um momento de paz, no entanto tinham se tornado o epicentro de sua ansiedade. A busca por relaxar se tornara o maior estressor. Ela riu, um riso alto e sincero, que fez seu cachorro levantar a orelha. Talvez a meditação não fosse apenas esvaziar a mente, mas sim aceitar a bagunça em seu interior. A caverna de "Oooohuuuuummm" era assustadora, porém a caverna de "preciso-fazer-mil-coisas" era muito mais hilariante. E, no fim das contas, foi o humor quem a salvou. Talvez a paz de espírito não estivesse na ausência de pensamentos, e sim na aceitação da sua total e completa loucura.

Ela se lembrou até de um episódio de um programa antigo da Regina Casé com o Luís Fernando Guimarães em que ela dizia em posição de Lotus “fui para Brasília para me encontrar, mas quando eu cheguei lá, eu já tinha ido embora”. Aí aparece a imagem dela, na mesma posição, flutuando, viajando para outro lugar...
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